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Desafios da regularização fundiária na liquidez de imóveis de herança familiar

Desafios da regularização fundiária na liquidez de imóveis de herança familiar

Recebi uma ligação semana passada de um cliente que resumia perfeitamente o drama de muitos brasileiros. Ele herdou um terreno com uma construção sólida em um bairro tradicional da capital. O inventário foi concluído, o imposto pago, mas, na hora de colocar o imóvel à venda para dividir o valor entre os três irmãos, veio a surpresa: a matrícula no cartório não refletia a realidade física do terreno. Havia uma divergência de metragem e a casa nunca tinha sido averbada. O imóvel, que parecia um ativo valioso, tornou-se um peso burocrático.

O gargalo invisível na hora da venda

A regularização fundiária não é apenas um detalhe técnico para burocratas; é o fator determinante entre vender um imóvel em seis meses ou ficar anos com ele parado. Quando um corretor de imóveis recebe um imóvel de herança sem a documentação impecável, o primeiro obstáculo é o financiamento bancário. A grande maioria dos compradores precisa de crédito imobiliário e, para os bancos, uma escritura que não condiz com a planta aprovada ou a falta do Habite-se significa risco absoluto.

Sem a regularização, você limita o seu público comprador apenas àqueles que possuem dinheiro vivo, o que reduz drasticamente o valor de mercado. Quem tem o recurso à vista sabe que o proprietário está em uma situação difícil e costuma oferecer propostas bem abaixo do que o imóvel realmente vale. É um jogo de perdas onde a pressa da família em liquidar a herança acaba drenando o patrimônio acumulado por gerações.

Por que a papelada emperra a valorização

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Muitas vezes, as famílias acreditam que, por terem o registro do terreno, tudo está em ordem. Porém, o mercado imobiliário moderno exige que a situação jurídica seja espelhada na realidade urbana. Se você construiu uma edícula, fechou uma varanda ou aumentou a área construída sem atualizar o projeto na prefeitura, você criou um passivo.

Durante uma avaliação de imóveis, o profissional experiente logo identifica esses pontos. O problema é que, para resolver isso, você precisa de tempo — algo que herdeiros raramente têm ou desejam investir. O processo envolve prefeitura, cartório de registro de imóveis e, ocasionalmente, o judiciário. Enquanto isso, o IPTU continua chegando e a manutenção do imóvel, que muitas vezes está vazio e sem uso, consome a liquidez que deveria ser o destino final da venda.

Estratégias para destravar o patrimônio

Se você está diante de uma herança, o primeiro passo é contratar um levantamento documental antes mesmo de anunciar o imóvel. Não espere um comprador aparecer para descobrir que a escritura está travada. O custo de um despachante imobiliário ou de uma assessoria jurídica especializada é ínfimo perto do desconto que você terá que conceder a um comprador oportunista que aceitar assumir a “bucha” de regularizar tudo depois da compra.

Outra estratégia eficaz é o home staging emocional combinado com a transparência total. Quando o comprador sabe exatamente quais são as pendências e vê que a família está agindo para resolvê-las, a confiança aumenta. Imóveis com documentação clara possuem uma liquidez muito maior porque permitem que o comprador planeje seu próprio financiamento sem sustos.

A regularização fundiária é, na verdade, uma forma de planejamento patrimonial. Deixar para resolver isso no momento da sucessão é delegar aos filhos uma tarefa que deveria ter sido acompanhada ao longo da vida. Se a ideia é transformar o tijolo em dinheiro para que cada herdeiro siga seu caminho, tratar a documentação como prioridade é a única forma de garantir que o valor construído pelo patriarca não seja perdido em multas, taxas e, principalmente, no tempo de mercado. O segredo é tratar o imóvel de herança não como uma relíquia imutável, mas como um ativo que precisa estar apto para transitar no mercado atual.

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